domingo, 17 de janeiro de 2016

Um novo endereço

Este blog segue, com sua atualização a partir de 2016, no endereço diegoesteves.in/escritos/

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Uma questão central.

Não é o desprezo o estimulante mais eficaz da criatividae, pois obriga o indivíduo a superar a si mesmo, pelo receio de se assemelhar ao que é vergonhoso e medíocre? Ora, ensina Zaratustra, "o que há de mais desprezível no mundo" é "o Último Homem"- o homem aviltado, sem fibra e subjugado que, frente à catastrofe da morte de Deus, escolhe se atolar no pântano da "felicidade"; em suma, o homem que se julga esperto porque prefere fruir mesquinhamente em vez de combater heroicamente.(...) Adivinha-se a receita dessa felicidade: a eliminação engenhosamente programada de tudo o que, na realidade, é fonte de conflitos, de lutas, de tensão- e, portanto, de superação. Trata-se de reduzir a existência humana a uma sonolência prazerosa e ininterrupta, a uma iresponsabilidade contente. Reconhece-se aí o ideal da "sociedade de consumo" moderna, versão técnica e publicitária do niilismo passivo.

Trecho do livro Nietzsche - Autor: Jean Granier.

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Uma dúvida cruel

Você está num show, intimista, em pé, próximo ao palco, pessoas conhecidas, copo na mão. A música termina, boa música, o copo não. Os aplausos, o copo na mão. Duas mãos, um copo. Como resolver a equação? Duas mãos são necessárias para aplaudir: o copo não pode estar ali. As opções vão passando pela sua cabeça enquanto as mãos estão a beira de um ataque de nervos: você pode fingir que aplaude, acompanhando o ritmo dos demais, mas o músico é seu amigo e ele merece aplausos verdadeiros. Você pode também usar mão e o ante-braço, mas isso não é um aplauso verdadeiro: nem som quase tem. Pode ainda soltar aqueles gritinhos do tipo: uhuuu, isso aí! (correndo o risco de te olharem dizendo: uhuu?!) Ou pôr o copo na cabeça e aplaudir. Ou ainda, lançar o copo para cima (isso caso esteja vazio), aplaudir, e pega-lo novamente. Ou jogá-lo para cima cheio mesmo, mantendo a boca para cima o tempo todo, ou bebendo o líquido na caída, já fora do copo (mas aí Macgyver, você pede os aplauso para si!). Prender o copo entre o ombro e a cabeça, entre o braço e o tronco, ou entre as pernas (mas se derramar neste local complicaria a sua imagem). Morder o copo, aceitando o risco dos cortes na boca, caso quebre. Correr até a mesa mais próxima, deixar o copo e aplaudir. Aplaudir juntando sua mão livre com o vizinho do lado que, disfarçadamente, busca solucionar o mesmo dilema. Pedir para que o vizinho segure o seu copo com a outra mão: assim pelo menos um pode aplaudir (injusto, mas o mundo é assim mesmo). Ou pode ainda... tarde demais, começou a outra música!

Mas eu penso assim. Mas eu penso outra coisa.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Danço porque não suporto a estrutura

Sei cá

Azul da cor do sol.
Como a cor do ar, que sopra em direção a lua, enquanto ela para.
Parada como o coração.
O sangue que circula, em linha, movente.
Os olhos que vêem, entre a pele que sofre.
Entre o sentido que grita.
Que sorri, ao ver o sol.
Quem sabe a chuva.
Que sentem o vento, como a lua, mas não param, se fecham,
Porque só a lua é forte para suportar o vento, parada.

Fazendo

A empolgação que se faz fazendo. O feito que se fez repetindo. Repetindo, repetindo, até ficar diferente. A diferença que se percebe na sensibilidade, exercitada na repetição. Tudo se repete e não se repete.

Caminhamos todos os dias, mas nunca pelos mesmos lugares. Porque mesmo que seja o mesmo nome de rua, ela já mudou de um dia para o outro, de um segundo para o outro.

Assim é com o corpo. Assim é conosco. Assim é. Mas perceber essa diferença é um exercício de repetição. Só passando muitas vezes pela mesma rua, para poder conhecê-la tão bem, que possa se perceber o que mudou, de um dia para o outro, de um momento para o outro.

Quando se sente empolgado com uma coisa que você já fez muitas vezes, pode ser porque agora percebe diferença, fruto do fazer. Isso se for algo que se faz por vontade por desejo. Isso é estudo. O ser que não desiste ante as primeiras dificuldades, que se permite tentar, errar e acertar num fazer, qualquer que seja, corre o risco de descobrir neste fazer coisas que os demais nem se quer imaginam.

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

As vezes: tão vezes, quanto for o mundo

Divêrjo

O senhor saiba: eu toda a minha vida pensei por mim, forro, sou nascido diferente. Eu sou é eu mesmo. Divêrjo de todo o mundo... Eu quase que nada não sei. Mas desconfio de muita coisa.


João Guimarães Rosa. Grande Sertão: Veredas

A TERRA

Penso na troca de favores que se estabelece; no mutualismo; no amparo que as espécies se dão. Nas descargas de ajudas; no equilíbrio que ali se completa entre os rascunhos da vida dos seres minúsculos. Entre os corpos truncados. As teias ainda sem aranha. Os olhos ainda sem luz. As penas sem movimento. Os remendos de vermes. Os bulbos de cobras. Arquétipos de carunchos.

Manoel de Barros. Pantanal.

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Retorno

Freqüentemente me reporto a imagem de um retorno ante a si: ao que sé é, ao que se foi, ao como se sente, se percebe, e se percebe pelos outros, ou de quais são esses mecanismos que, talvez ao modo de um espelho, nos aponto uma determinada forma de ser e estar consigo e com os outros no mundo.

Penso em um retorno, que não se distancia do eterno retorno de Nietzsche, mas que também não o é. Retorno: tornar-se a si, não bem como um espelho, por sua carência de perspectiva, mas como um espírito que sobrevoa o corpo, mas o corpo ainda em vida. Ou a exemplo da ficção em filmes como “De volta para o futuro”, onde pode se encontrar em um dado momento histórico e se observar.

A brevidade desta questão nos incursos de meus pensamentos e estudos não permitiram um estratificação de possibilidades e formas, mas uma solta análise do possível. Das mais consistentes, no sentido do estudo, está a arte, como possibilidade deste retorno. Como a crítica que põe em crise este ser no encontro com a arte. Como o riso, que do outro, com o outro, enquanto ri de si. Mas outras formas também são elaboradas de acordo com o seu campo de estudo, na psicologia, ou na fisioterapia, entre outros, de acordo com seu plano de imanência.

Plano de imanência, Deleuze e Guattari, O que é a Filosofia?

A filosofia também pensa esse retorno. Talvez seja este o tema mais recorrente, o motivo da filosofia ser filosofia: as inquietações ante o mundo, mas principalmente ante a si, pois o mundo passa por si antes de ser mundo.

Mas de alguma forma, me parece que este retorno, na psicologia, fisioterapia, filosofia, ou outros campos de estudo, buscam uma neutralidade, transpondo este retorno não a si, mas ao outro, como um exemplar humano, que incluiria também a si. Se estuda, se pensa, se analisa o outro, mas com um distanciamento que não toca diretamente a si, a não ser num segundo momento, quando se pensa as teorias e suas implicações sobre si.

Este retorno que penso, não se daria sem um soco na boca do estômago, ou uma rasteira num tombo de muito mal jeito. Não seria sem uma falta momentânea de ar, até quase o desmaio. Não seria se não algo intenso, como uma tal desestabilização do ser, que se não levasse a loucura, o levaria para um outro plano, não necessariamente mais superior, mas, no mínimo, mais intenso. Com a intensidade do olhar no olho, da pele com a pele, do corpo-a-corpo: mas trata-se do mesmo corpo. Era esse risco da loucura, que fazia com que os personagens do filme não se permitissem encontrar consigo, no passado ou futuro.

Continuo com a arte, continuo tendo nela uma forma desse retorno. Mas também penso no oriente, na meditação. Como também não descarto os alucinógenos, as drogas, embora esses possam levar a uma desterritorialização tão intensa, que não permita um resto de terra, onde se reconstruir, se territorializar depois. Um queda demasiado grande, onde se desceria em termos intensivos ou energético, em potência, após o efeito desse agente externo.

Voltar-se-para não implica somente se desviar, mas enfrentar, voltar-se, retornar, perder-se, apagar-se. (Deleuze e Guattari, O que é a Filosofia? P. 55)

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Colóquio dentro de um ser

Mas mudando de assunto, li ontem com Paul Valéry, o seguinte diálogo, que me apetece acrescentar aqui. Momentos passados, passando, repassando. Escolhas que temos que assumir, outras ainda por vir. Me tocou tal diálogo, pelo momento em que passo, e também passam outros por momentos parecidos, pelo que sei das conversar perdidas pela rua.
Esse diálogo se chama Colóquio dentro de um ser.

A
- Chora, mas vive! Sai do estado de larva. Desembaraça-me dessa miserável mistura de sensações equivalentes, de lembranças sem serventia, de sonhos sem lastro, de previsões sem consistência... Chama à ordem, reúne todas essas pequenas forças não-orientadas que se dispersam em tua fadiga. Tua Fraqueza nada mais é que a confusão de todas elas. Vamos, separa-me todas essas espécies: junta tuas energias de mesma natureza; não mistura mais o verdadeiro com o falso; cada um deve servir em seu momento! Organiza as diversas partes do tempo complexo, que te permitem fazer aquilo que não é agir sobre o que é, e o que é sobre o que não é... Comanda bem tuas pernas e teus braços, e sente teu poder até as extremidades de teu império sobre esses membros. Apropria-te de teu olhar, e faze o espaço, em vez de sofrer todos os acidentes da extensão colorida... Desenha pois, de teu olhar em movimento, a figura nítida dos objetos. Assegura-te também de tua potência interior. Exige, exerce, excita a liberdade geral dos termos e das formas de tua linguagem; desperta os mecanismos de combinação, de transposição, de articulação das idéias e de distinção dos conceitos...

.......

B
- E então... farei o que é preciso. Sinto em mim de repente uma extraordinária energia. Vejo-me carregado de vida e quase embaraçado por uma liberdade de pensar e de agir que me invade, como que fortemente excitada pela iminência das dificuldades e dos aborrecimentos que há pouco me abatiam a alma.

A
- Atenção! Fico encantado de te ver tão diferente daquele que com tantos esforços arranquei do estado de vida confusa. Aprecio verdadeiramente tua metamorfose. Nada eras, e farás tudo! Mas toma cuidado... Não abusa desse vigor. A noite existe. Sempre vem.

B
- Crês que minha lucidez não a veja aproximar-se? Crês que não pensa em seu próprio crepúsculo – e mesmo que não o admire? Não é uma suprema maravilha pensar que possuímos em nós aquilo que nos faz desaparecer – enquanto que todas as coisas, como que capturtadas, o que quer que sejam , numa única e mesma rede que a arrasta insensivelmente rumo a sombra – as pessoas, os pensamentos, os desejos, os valores, os bens e os males, e meu corpo e os deuses, se retiram, se dissolvem, se aniquilam, se obscurecem juntos?... Nada aconteceu. Tudo se apaga ao mesmo tempo. É bonito? Quando o navio afunda, o céu desmaia e o mar evapora...
Mas por enquanto, amigo, olha como este punho é firme. Bate na mesa. A mesa força está em meu coração, que é maciço como ele, bate em cheio o tempo de meu poder! Eu sou medida e desmedia, rigor e ternura, desejo e desdém: eu me consumo e me acumulo: eu me amo e me odeio, e sinto-me, da testa a ponta dos pés, aceitando-me tal como sou, como eu for, respondendo com todo o meu ser à questão mais simples do mundo: que pode um homem?


Depois disto, sem mais o que escrever.


Paul Valéry. A Alma e a Dança e outros diálogos. Rio de Janeiro: Imago Ed. 2005.

Citações Barthes

Do Incidentes. Do gosto de minha amiga Ana:

"(...) Nada, por exemplo, tem mais importância na minha lembrança do que os odores daquele bairro antigo, entre Nive e Adour, que se chama pequena Bayonne: todos os objetos do pequeno comércio ali se mesclavam para compor uma fragrância inimitável: a corda das sandálias (aqui não se diz 'espadrilles') trabalhada por velhos bascos, o chocolate, o azeite espanhol, o ar confinado das lojas escuras e das ruas estreitas, o papel envelhecido dos livros da biblioteca municipal, tudo isso funcionava como a fórmula química de um comércio que já desapareceu (embora esse bairro ainda conserve um pouco desse charme antigo), ou, mais exatamente, funciona hoje como a fórmula dessa desaparecimento.
Pelo cheiro, é a própria mudança de um tipo de consumo que eu capto: as sandálias (com as solas
tristemente revestidas de borracha) já não são artesanais, o chocolate e o azeite se compram fora da cidade, num supermercado. Acabaram-se os cheiros, como se, paradoxalmente, os progressos da poluição urbana expulsassem os perfumes caseiros, como se a 'pureza' fosse uma forma pérfida de poluição."



"Pois 'ler' uma região é primeiro percebê-la segundo o corpo e a memória, segundo a memória do corpo. (...)Por isso a infância é a via régia pela qual conhecemos melhor um país. No fundo, não existe país senão o da infância."

Na mesma linha sincronica...

Outro fato. Talvez sincronicidade, mas que foi muito engraçado.

Estava eu em Belo Horizonte, recém chegado, faziam umas 3 horas, para o Festival Mundial de Circo do Brasil, e conhecendo a cidade. Meu guia, Rafa, me apresentava a Avenida Afonso Pena, o Parque Muncipal, quando parados na sinaleira, alguém me toca o ombro e esboça a solicitação de uma informação geográfica, no que eu já começo a rir: tanta gente pra pedir informação e vai logo pedir pra um gaúcho mais perdido que qualquer outro ser em Belo Horizonte?! Somente isso já era suficiente pra me divertir (aliás, tudo é divertido para um turista), mas não era só. Bastou eu me virar, esboçando um "Bá amigo, sou gaúcho, não conheço nada aqui!" para encontrar a minha frente Vitor, vugo Queridão, amigo também malabarista, recém chegado de Campinas. Agora pensa: qual a chance disso acontecer?

O mundo é mesmo pequeno...

Ou melhor, como dizia o Profeta Gentileza: o mundo é redondo, e o circo arredondado.

Todo se Transforma

Tu beso se hizo calor,
Luego el calor, movimiento,
Luego gota de sudor
Que se hizo vapor, luego viento
Que en un rincón de la rioja
Movió el aspa de un molino
Mientras se pisaba el vino
Que bebió tu boca roja.

Tu boca roja en la mía,
La copa que gira en mi mano,
Y mientras el vino caíaS
upe que de algún lejano
Rincón de otra galaxia,
El amor que me darías,
Transformado, volvería
Un día a darte las gracias.

Cada uno da lo que recibe
Y luego recibe lo que da,
Nada es más simple,
No hay otra norma:
Nada se pierde,
Todo se transforma.

El vino que pagué yo,
Con aquel euro italiano
Que había estado en un vagón
Antes de estar en mi mano,
Y antes de eso en torino,
Y antes de torino, en prato,
Donde hicieron mi zapato
Sobre el que caería el vino.

Zapato que en unas horas
Buscaré bajo tu cama
Con las luces de la aurora,
Junto a tus sandalias planas
Que compraste aquella vez
En salvador de bahía,
Donde a otro diste el amor
Que hoy yo te devolvería

Cada uno da lo que recibe
Y luego recibe lo que da,
Nada es más simple,
No hay otra norma:
Nada se pierde,
Todo se transforma.

Sincronicidade

Termo cunhado por Carl Gustav Jung para sua teoria de que tudo no universo estava interligado por um tipo de vibração, e que duas dimensões (física e não física) estavam em algum tipo de sincronia, que fazia certos eventos isolados parecerem repetidos, em perspectivas diferentes. Tal idéia desenvolveu-se primeiramente em conversas com Albert Einstein, quando ele estava começando a desenvolver a Teoria da Relatividade. Einstein levou a idéia adiante no campo físico, e Jung, no psíquico. 1

Já pensaste nisso? Sentiste, passaste? Provavelmente.

Então, ontem passei por uma situação intrigante. Estava no Parque Farroupilha, mais conhecido como Redenção, como de costume. Realizava meu treino de malabarismo, e como é de praxe, escutava música com meu mp3 player. Tento criar um campo entre eu, as bolas e a música em meus ouvidos, que não permitem que muitos outros sons entrem, nem sentidos, uma busca de foco.

Mas ontem, desde o momento em que cheguei, me chamou a atenção um grupo que estava sentado junto ao espaço onde os malabaristas costumam permanecer. Um deles tocava um violão. Eu não os ouvia, buscava a concentração no jogo, no treino, e ouvia Jorge Drexler, Todo se Transforma. Foi nesse contexto, que por algum motivo, (talvez tenha ouvido por traz do Drexler um outro que o repetia, não lembro) mas tirei os fones do ouvido. Bom, preciso dizer o que o maluco do violão cantava? Cada uno da, lo que recibe. Y luego recibe lo que da. Nada es más simple, no hay otra norma: nada se pierde, Todo se transforma!

Agora, pensem comigo: nada tão impressionante se a música fosse Legião Urbana, mas Jorge Drexler?! Um uruguaio que nem tão conhecido por aqui é.

Sincronicidade?

Bom, nem conheço esse conceito, fora uma simples pesquisa na internet, mas tenho motivos para tanto.

Um pouco mais que um mês passado eu conversava com uma amiga distante pela internet, falávamos sobre Roland Barthes, filosofo francês querido por mim e também conhecido dela. Ela me dizia os livros que tinha e um deles em especial, conhecido, chamado Incidentes. O livro ela ainda não havia lido, pois, originalmente, nem era seu. Bom, aconteceu que nos dias seguintes nos reencontramos no MSN quando ela me contou o seguinte fato: na noite da nossa conversa ela acordou, com o sono interrompido, sentiu uma vontade de ler o Incidentes do Barthes. Abriu o livro e leu a seguinte frase: Hoje, 17 de julho, faz um tempo esplêndido.

Era dia 17 de julho.

Hoje, eu treinava: tecido e eu. O cd que tocava chegou ao fim, e minha colega que estava no chão me perguntou se eu queria músicas no mesmo estilo daquelas, eu respondi que sim. Logo que senti as músicas, me agradaram, mesmo sendo de origem desconhecida por mim. Lembrei de outra música. Esta outra, era a trilha usada por outro artista circense num número de acrobacia aérea em tecido. Num dia, em Montenegro, quatro ou cinco anos atrás, apresentamos juntos, com sua música, que eu na época desconhecia. E depois disso a ouvi mais umas duas ou três vezes, em situações diferentes. Continuando sem saber referências dela.

No final do treino, alguns minutos depois, eu comentava o quanto eram boas as músicas, então ela me disse: “põe na trilha onze, é muito boa”. Nesse momento, antes mesmo de ouvi-lá, eu tive certeza de que se tratava da mesma música de quatro ou cinco anos atrás.

Pedi o cd emprestado. Acabei de copiá-lo.

Sincronicidade?

Incidentes?

Cada um dá o que recebe, logo recebe o que dá. Nada é mais simples, não há outra norma: Nada se perde, tudo se transforma!


1 Site: http://somostodosum.ig.com.br/conteudo/conteudo.asp?id=3425
Sobre Drexler: www.jorgedrexler.com

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Eu eu e eu

Barthes, Barthes...


Sim. E eu, sujeito do enunciado, que tanto pensa em estraçalhar no texto o eu, que pensa em fazer do texto algo menos eu, e mais outra coisa, nesses dias, por todas voltas e reviravoltas, ando meio em torno do meu umbigo: para onde ele vai? Nada tão egocêntrico, quanto introspectivo. Qual é mesmo a diferença?

A escritura faz do saber uma festa. Fato. E no escrever, jogo na tela o que me incomoda, assim posso olhá-lo de longe. E ele a mim. E me rever. Transver. Careço de análises mais elaboradas, mas no momento é uma questão de visibilidades: primeiro por a prova, para depois provar. Há aí um divertido jogo!

Mas devo dizer que é tudo um grande exagero. Pois sim.

e fechando a trilogia Barthesiana...

Segundo o discurso da ciência - ou segundo certo discurso da ciência - o saber é um enunciado; na escritura, ele é uma enunciação. O enunciado, o objeto habitual da linguística, é dado como o produto de uma ausência do enunciador. A enunciação, por sua vez, expondo o lugar e a energia do sujeito, quiça sua falta (que não é sua ausência), visa o próprio real da linguagem; ela reconhece que a língua é um imenso halo de implicações, de efeitos, de repercussões, de voltas, de rodeios, de redentes; ela assume o fazer ouvir um sujeito ao mesmo tempo insistente e insituável, desconhecido e no entanto reconhecido segundo uma inquietante familiaridade: as palavras não são mais concebidas ilusoriamente como simples instrumentos, são lançadas como projeções, explosões, vibrações, maquinarias, sabores: a escritura faz do saber uma festa.


Barthes. Aula.

Meu corpo é bem mais velho do que eu

... Meu corpo é bem mais velho do que eu, como se conservássemos sempre a idade dos medos sociais com os quais o acaso da vida nos pôs em contato. Portanto, se quero viver, devo esquecer que meu corpo é histórico, devo lançar-me na ilusão de que sou contemporâneo dos jovens corpos presentes, e não de meu próprio corpo, passado. Em síntese; periodicamente, devo renascer, fazer-me mais jovem do que sou...

Barthes. Aula.

Sapientia!!!

Empreendo, pois, o deixar-me levar pela força de toda a vida viva: o esquecimento. Há uma idade em que se ensina o que se sabe; mas vem em seguida outra, em que se ensina o que não se sabe: isso se chama pesquisar. Vem talvez agora a idade de uma outra experiência, a de desaprender, de deixar trabalhar o remanejamento imprevisível que o esquecimento impõe à sedimentação dos saberes, das culturas, das crenças que atravessamos. Essa experiência tem, creio eu, um nome ilustre e fora de moda, que ousarei tomar aqui sem complexo, na própria encruzilhada de sua etimologia: Sapientia: nenhum poder, um pouco de saber, um pouco de sabedoria, e o máximo de sabor possível.

Roland Barthes. Aula. Editora Cultrix, São Paulo: 2007.